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Diagnóstico
e tratamento da disfunção erétil
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Diagnosis
and treatment of erectile dysfunction
Carlos Roberto
Ferreira Jardim
Membro titular da Sociedade Brasileira de Urologia
Coordenador Auxiliar do Departamento de Andrologia da Sociedade Brasileira
de Urologia
Responsável pelo Setor de Andrologia da Cadeira de Urologia da
Universidade Federal Fluminense
Endereço para correspondência:Rua Guararapes, 144 - São
Francisco - Niterói - RJCEP 24360-150
E-mail: carlosjardim.andro@esquadro.com.br
Introdução
Disfunção erétil (DE) é a incapacidade permanente
de obter ou manter ereção peniana rígida o suficiente
para uma atividade sexual satisfatória. A disfunção
erétil incide com maior frequência no homem idoso. Entretanto,
tal associação não é atribuída apenas
à idade, pois ocorre, provavelmente, porque esse é o grupo
mais contemplado por doenças crônicas e debilitantes, como
diabetes, hipertensão arterial, infarto do miocárdio e acidente
vascular cerebral. De outra parte, é também nessa faixa
etária que se observa maior incidência de doenças
malignas com tratamentos frequentemente invasivos e/ou mais agressivos,
que acabam comprometendo a função sexual. O primeiro estudo
epidemiológico nessa área foi conduzido por Kinsey, em 1948.
Por meio de entrevista com 12 mil indivíduos, ele observou que
a disfunção erétil estava presente em cerca de 1%
dos homens abaixo dos 19 anos; 3% até os 45 anos; 6,7% entre 45
e 55 anos; e 25% até a idade de 75 anos. Entre 1987 e 1989 foi
efetuado o "MMAS - Massachusetts Male Aging Study". Utilizou-se
um questionário com 23 questões, sendo nove sobre performance
sexual, no qual 1.290 homens, entre 40 e 70 anos, registraram seus problemas.
A soma das respostas obtidas mostrou que 52% deles referiam algum grau
de disfunção erétil: 10% completamente impotentes,
25% moderadamente impotentes e 17% minimamente impotentes. Considerando
a estratificação por faixa etária, o mesmo estudo
confirmou disfunção erétil completa em 5% dos homens
com 40 anos e em 15% dos indivíduos com 70 anos de idade. A partir
desses dados, foi projetado um total aproximado de 18 milhões de
indivíduos com diferentes níveis de DE nos Estados Unidos.
Estima-se que na América Latina aproximadamente dez milhões
de homens necessitam de tratamento para disfunção erétil.
A magnitude da DE em nosso meio ainda precisa ser melhor investigada,
sobretudo por estudos especificamente planejados para atingir esse objetivo.
Tais estudos devem considerar e abordar as prováveis diferenças
regionais, associadas à heterogeneidade de fatores sociais, educacionais
e culturais, entre outros.
Diagnóstico
Diante da impossibilidade do estudo do pênis em ereção,
até meados dos anos 80 a avaliação da disfunção
erétil era feita de maneira empírica. Com o advento de injeções
de fármacos intracavernosos (Virag 1982, Brindley 1983) foi possível
estabelecer as bases anatomofuncionais da ereção e da fisiopatologia
da DE. Segundo elas, a tumescência peniana resulta de um complexo
mecanismo neurovascular sob influência psicológica, enquanto
as disfunções decorrem de falhas em um ou mais compartimentos.
Como consequência desses conhecimentos, a semiologia nesta área
teve notável desenvolvimento, procurando definir a causa da disfunção
como meio de oferecer adequada orientação terapêutica.
Foram introduzidos métodos sofisticados, por vezes invasivos, a
exemplo da cavernosometria dinâmica, de identificação
de fatores vasculares, neurológicos, psicológicos e da constituição
histológica dos corpos cavernosos. Concomitantemente, inúmeras
modalidades terapêuticas, clínicas e cirúrgicas, foram
propostas e realizadas em larga escala. Menos de uma década após
o início da era moderna, do tratamento da DE, a experiência
com os discutíveis resultados obtidos alterou o arsenal terapêutico,
principalmente o cirúrgico, reduzindo algumas indicações
selecionadas. A maioria das operações, visando a correção
de distúrbios vasculares (arteriais e venosos), tem apresentado
resultados pouco expressivos e, em geral, efêmeros, embora tenham
sido identificados grupos que, eventualmente, beneficiaram-se de procedimentos
arteriais: pacientes jovens, sem riscos vasculares, que sofreram traumas
com lesão vascular. O conhecimento dos resultados dessas intervenções
trouxe importantes conotações propedêuticas para os
dias atuais, através do qual se procura avaliar de maneira mais
complexa e "invasiva" apenas distúrbios orgânicos
com boas perspectivas de cura e não para satisfazer a normal curiosidade
científica. Segundo tais tendências, a proposição
atual é o emprego da avaliação mínima, menos
invasiva e de menor custo, baseada nas probabilidades de cura e no desejo
terapêutico dos pacientes. Não há qualquer argumento
consistente para se proceder a uma propedêutica vascular invasiva
em idosos com riscos vasculares cuja revascularização não
é indicada. Observa-se que alguns itens são sistematicamente
realizados, enquanto outros são indicados apenas em condições
específicas.
História
clínica
O objetivo inicial do diagnóstico é distinguir a DE de origem
psicogênica, orgância ou mista. A história clínica
obtida de maneira criteriosa, com informações sobre a situação
sexual, psicossocial e médica, pode em muitas circunstâncias
atingir tal propósito. A história sexual, incluindo relatos
sobre qualidade, frequência e duração das ereções,
assim como alterações da libido, orgasmo e ejaculação,
é importante nesta análise. A disfunção erétil
de origem psicogênica tem, em geral, início abrupto, comumente
relacionado a um fato específico, além da história
de ereções noturnas e masturbações normais.
Observa-se comumente relato de atividade sexual normal com determinada
parceira ou ambiente e dificuldade de obtê-la com a outra em circunstâncias
por vezes muito favoráveis. Por outro lado, na disfunção
de origem orgânica ocorre com frequência um declínio
gradual da capacidade erétil e também dificuldade da manutenção
do pênis em ereção. Na elucidação da
história psicossocial, o médico deve questionar o relacionamento
pessoal com a parceira, problemas profissionais, sociais e financeiros
e uso de drogas, além de tratamentos de alterações
mentais, sobretudo no plano afetivo. Dessa forma, na maioria dos pacientes
a avaliação psicológica é feita numa primeira
fase pelo próprio urologista, baseada nas informações
de anamnese e nos exames subsidiários. Havendo fortes indícios
de comprometimento de fundo emocional, a propedêutica e a terapêutica
deverão ser orientadas por especialistas da área. A entrevista
deve fornecer informações sobre fatores de riscos, como
hipertensão arterial, tabagismo, medicamentos, diabetes, hiperlipidemia,
doença arterial coronariana (DAC), distúrbios vasculares
periféricos, operações e traumas perineais ou pélvicos,
bem como história de radioterapia de abdome inferior. A anamnese
assim obtida pode fornecer dados que levam com frequência ao diagnóstico
conclusivo. É importante definir que, independentemente da impressão
inicial, o diagnóstico diferencial entre causas orgânicas
e psicológicas pode não ter uma distinção
absoluta. A entrevista com o casal, sempre que possível, é
útil e desejável, mesmo quando existe evidência de
que a disfunção é de origem orgânica.
Exame
físico
O exame físico deve ser geral e específico, incluindo análise
dos caracteres sexuais e secundários, buscando dados que forneçam
informações sobre a integridade do sistema vascular, nervoso
e endócrino. O exame criterioso da genitália externa deve
avaliar o tamanho e a consistência dos testículos e a presença
de placas endurecidas no pênis. O exame neurológico básico
deve incluir a sensibilidade peniana e testicular, perineal, tônus
do esfíncter anal, assim como do reflexo bulbo cavernoso. A avaliação
prostática é recomendável principalmente em homens
após os 45 anos de idade. O exame vascular, além da medida
da pressão arterial, deve obter informações sobre
a normalidade dos pulsos femorais, das extremidades (pediosos, tibiais
posteriores) e também da dorsal do pênis. A normalidade deste
não significa perfeita irrigação cavernosa, porém
a presença de anormalidades é com frequência associada
a alterações vasculares, o que passa a exigir investigações
diagnósticas mais complexas.
Propedêutica
complementar
A avaliação vascular pelo Tefi (teste de ereção
fármaco-induzida com papaverina ou prostaglandina E1 ou com a associação
de drogas) merece destaque por ser realizada na maioria dos pacientes;
quando seus resultados indicam ereção satisfatória,
significa integridade vascular e cavernosa. Nessas condições,
contribui sobremaneira para o diagnóstico e oferece ainda a opção
terapêutica baseada em injeções intracavernosas intermitentes.
A semiologia vascular, tecnicamente mais sofisticada, só se justifica
em situações especiais, ou seja, nos casos em que os achados
arteriais e venosos forem passíveis de tratamento com perspectiva
de sucesso. Excluem-se, portanto, homens com idade superior a 40 anos
ou com riscos vasculares (hipertensão, diabetes, tabagismo, dislipidemias)
que apresentam apenas queixa de disfunção sexual. Testes
especiais de avaliação neurológica são realizados
em situações específicas quando existe forte suspeita
de envolvimento do SNC (diabetes, operações retroperitoneais,
prostatectomias etc.). Assim, conclui-se que o racional da avaliação
mínima é a obtenção de informações
que conduzam ao diagnóstico e, consequentemente, ao tratamento,
sem submeter os pacientes à propedêutica exaustiva, dispendiosa
e desnecessária na maioria dos casos.
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